domingo, março 21

De mala e cuia pra Moçambique - última parte





No dia 5 de janeiro, de 2009, China e eu deixamos o Brasil. Com minha bagagem de 28Kg, eu seguia rumo a um lugar cheio de mistérios. Ficaram para trás muitas coisas. Minha família, meus amigos, meus livros e até minha coleção de cartões telefônicos! Já no aeroporto, depois do check-in, veio o doloroso momento da despedida. Não conseguia pensar nem dizer nada, apenas soluçava num choro que previa quanta saudade eu ia sentir de tudo que deixava. Acho que o China não sabia muito bem o que fazer ao ver um cara todo barbudo chorando daquele jeito! É meio chocante!

Aos poucos passou o chororô e começou o medo de voar de avião. É tenso saber que vai passar mais de 10 horas seguidas dentro de uma aeronave, no meio das nuvens e por cima de toda imensidão do oceano! Quando o gigante da South African tomou velocidade e começou a subir, pensei logo: “fodeu, agora já era!”. As minhas mãos suavam mais do que qualquer axila, o coração batia forte como nunca, a boca estava seca, as pernas trêmulas e a testa toda franzida.



Demorou pra eu me acalmar totalmente. Assisti uns filmes, conversei com China, li revistas... tentei me distrair de todo jeito. De repente, um susto. Acho que já dava umas 8 horas de vôo, quando o avião deu umas sacudidas muito fortes. Foi horrível, pensei que ia cair! Imediatamente a mão volta a suar, o coração a acelerar, a boca a ficar seca, as pernas a tremerem e a testa a franzir, mas tudo com o dobro de intensidade de antes! Tensão total mesmo.. A sensação que eu tive foi como se o motor tivesse sido desligado por 2 segundos! Foi a coisa mais medonha que eu já tive a infelicidade de sentir. Desesperado, olhei pro lado e comecei a falar com o China:

- Mermão, mermão! Isso é normal cara? Essa porra vai cair, não vai? Fala a verdade!

China todo relax, responde:

- Relaxa, cara! Isso é muito normal... Acontece sempre! Fica tranquilo!


Obs: alguns dias depois desse vôo, eu tava conversando com China e ele confessou ter dito aquilo só pra eu não me desesperar! O bicho tava morrendo de medo também porque nunca tinha sentido uma turbulência tão forte! Grande brother, não?!



Depois do susto, desembarcamos na África do Sul, de onde pegaríamos um segundo avião. Os problemas com o inglês logo começaram! A gente não sabia ir para os portões de embarque e também não sabia perguntar como chegar lá! Desespero, raiva, preocupação com o horário. Depois de tanto procurar uma única alma que falasse português e não encontrar, tentamos improvisar no inglês. Péssimo! Não saía nada além de “help me please! I’m lost!”. Um funcionário do aeroporto pegou o bilhete (prevendo que a gente só queria chegar ao portão de embarque) e disse “follow me, please!”. Isso eu entendi muito bem, por conta do Twitter! Ok, depois de nos fazer andar quase 10 minutos naquele gigantesco aeroporto de Johannesburg, o funcionário abre novamente a boca:


Funcionário: The gate is here!

Eu: Really? Thank you, man!

Funcionário: No problem!

Eu: So... have a good day.

Funcionário: Do you have some money for me?

Eu: Sorry?

Funcionário: Money, money. Do you have money?

Eu: Sorry, but I don’t understend.

Funcionário (gesticulando): MOOOONEY!!

Eu (saindo de fininho e dando uma de desentendido!): Oh, Ok, ok! Thank you, very much! Bye...


Logo o funcionário fez uma cara muito feia foi-se! Eu entendi muito bem o que ele queria, mas só tinha 5 notas e todas de 100 usd. E eu jamais ia conseguir explicar pra ele que não tinha trocados! Felizmente me safei dessa!



Depois de perdermos algumas horas dentro daquele aeroporto, pegamos o segundo avião. Em 1h30 estávamos em Maputo. Antes de sairmos da aeronave, a ansiedade começou a atacar Tive um sentimento louco, uma mistura de medo e curiosidade. Fui na frente, em direção à saída do avião. Quando eu chego na porta, prestes a por o primeiro pé para fora, volto e digo ao China :

- Cara, num vô não. Nem fudendo que eu vou sair desse avião!

O China sem entender nada, me empurra mandando eu parar de brincadeira porque tinha gente atrás, querendo passar. Eu travei com as mãos na porta e insisti:

- Mermão! Daqui eu não saio não! Vou morrer queimado!

China já puto - e sem imaginar o que o esperava - me empurra e sai logo atrás. Na primeira respirada que demos fora da aeronave, cujo ar condicionado nos colocava numa temperatura de 18 graus, sentimos o baque! Soltamos juntos um “pu-ta-que-pa-riu, que calor do caralho!”. Sem brincadeira, a sensação térmica era de uns 46/47 graus. Fazia 44/45, na realidade. Corremos pelo asfalto quente e entramos para as dependências do aeroporto. O ar-condiocionado não era dos bons, mas minimizava o calor, pelo menos, em uns 15 graus.




Pronto. Passaportes, carimbados, bagagens inspecionadas, China e Zeca suados como nunca. Fomos recebidos pela assistente do nosso chefe, a simpaticíssima Fernanda. Ela nos levou para o hotel, numa Besta cheia de equipamentos de filmagens, deu-nos telefones, dinheiro para comermos e se foi. Andamos pelo hotel, comemos, descansamos, ficamos horas na janela olhando tudo.




A cidade lembrava aquelas fotos que a gente vê do Brasil nos anos 70, 80. A arquitetura européia, trazida no período colonial pelos portugueses, está presente até os tempos de hoje. Aí junta também com um toque asiático, dado pelos indianos, povo que compõem boa parte da sociedade aqui.



O calor incomodava, mas o pior era aguentar os mosquitos! Sangue novo no pedaço, os bichinhos queriam nos picar a todo custo. Ainda bem que eu havia trago meu querido repelente! Mais tarde, a Fernanda ligou marcando um jantar com o Sr. Vasco. Fomos recebidos por ele com muita atenção. Gente boa, o gajo. O único problema foi que não entendemos absolutamente nada do que ele disse durante as 2 horas que estivemos juntos! Conversa vai, conversa vem e, assim, inicia-se uma nova fase da vida do Zeca.

O que acontece daqui em diante você vai conferir nas postagens semanais do FALANDO DE BORLA (qualquer hora conto sobre o nome do blog). É muita história bacana! Vale a pena acompanhar. Ah, e prometo também ser mais sintético para uma leitura mais rápida! Hehe

Grande abraço. Fiquem com o vídeo que fizemos na nossa primeira noite no hotel Turismo, em Maputo.



segunda-feira, março 15

Phalaborwa


Recentemente (final de fev/10) conheci uma cidade muito interessante chamada Phalaborwa. Situada na província de Limpopo, África do Sul, a cidade faz fronteira com o Kruger National Park e fica a duas horas da fronteira com Moçambique. Fui com mais 3 amigos para vermos o show de uma banda sul-africana chamada Freshlyground. Muito boa banda, por sinal. A nossa saída de Maputo foi debaixo de chuva, porém muito tranqüila. Seis longas horas depois estávamos lá, no Poona Lodge. E o que pareceu um passeio pacato, no início, acabou tornando-se uma das minhas viagens mais legais aqui na África.


Tava cheio dessa espécie de lagartixas no lodge. Fiquei impressionado com as cores delas!


O Lodge, muito bonito e confortável, fica pertinho do estádio onde aconteceu o Show. Fomos muito bem recebidos lá. Era uma sexta-feira e, mesmo cansados, quisemos curtir a noite na cidade. Tínhamos que aproveitar bem, já que iríamos embora no domingo. A filha da dona do lodge, Tineal, e o amigo Nathan se colocaram a nossa disposição e nos levaram para a noitada. Depois de algumas doses de Jack Daniel’s, num barzinho tão vazio quanto aconchegante, fomos pra uma boate chamada Arrows. Logo percebemos algo errado. Tanto no barzinho quanto na boate, só haviam brancos. Negros eram proibidos (isso mesmo: se entrar é expulso ou apanha). Nossos novos amigos explicaram que, apesar do fim do Apartheid, a separação entre negros e brancos ainda acontece naquela e em várias outras cidades do país. Uma grande pena.


Nathan, Serginho, China, Leo, eu e Tineal.


Achei bonita esta máscara. Ela decora o bar do Poona Lodge.


No sábado, fomos conhecer uma área de exploração mineral. A vista mais linda do passeio. Tivemos que subir no auto de uma montanha pra ver melhor a região. Como o carro não subiu e tivemos que ir a pé! A sorte foi que, na metade do caminho, um filho de deus que passava por ali ofereceu-nos uma carona. Não ficamos muito tempo lá. Tiramos umas fotos e pegamos estrada para voltar ao Lodge. No caminho, vimos muitos macacos e passamos por um rio imenso, cheio de crocodilos e hipopótamos.


A cerca não evita que os macacos invadam a rua. Na verdade a cerca é para gente não entrar!



À tarde, tivemos a oportunidade de presenciar a situação contrária da noite anterior: um lugar onde só os negros freqüentavam. Por acaso, era o estádio onde veríamos o Freshly tocar. A Tineal, o namorado, o Nathan e outros amigos deles foram com a gente. Tive uma sensação estranha quando meus olhos procuraram e não encontraram outros brancos no local. Sem exagero, somente nós de brancos (no meio de mais de 4 mil pessoas). Senti um certo apavoro. Talvez um preconceito implícito. Depois passou! Fizemos amizade com vários negros. Eles são extremamente curiosos e, simplesmente, adoram os brasileiros. Que sorte!


China fazendo amizade!


Deixando de lado o Apartheid 2.0 – como classificou o meu amigo Serginho, em seu blog – demos uma volta no estádio para ver o que rolava, até o show começar. Encontramos uma senhora muito simpática, que oferecia um sumo de Marula. Todas as pessoas passavam por ali para encher o copo com o líquido branco-encardido. Apesar do receio, tomamos alguns goles para participar da tradição. Confesso que não era nada saboroso. Tinha uma textura esquisita e um gosto azedo. Sentia-se ali o forte sabor da fruta africana que hoje faz sucesso no mundo, através da Amarula.




Mas sobre o Freshlyground, antes que fiquem na expectativa, vou logo dizendo: não vimos show nenhum! No fim da tarde, depois de horas de atraso deles, o China e eu decidimos ir embora. Ouvimos dizer que o pessoal começava a ficar muito bêbado e depois perdia um pouco a noção. Meu pai me ensinou, há muitos anos, um ditado que serviu direitinho pra situação: “antes que o mal cresça, corte a cabeça!”. Pra evitar qualquer incidente, largamos os nossos amigos – que não queriam ir embora por nada – e fomos. O Serginho, aliás, foi assaltado, alguns minutos antes, por um rapaz que se fingiu de amigo. “Tensooo” (expressão do próprio!).

Mais tarde, Victor e eu fomos pra Arrows novamente e acabamos encontrando Serginho e Leo. Soubemos logo que eles também não assistiram ao show. O atraso dos artistas foi de mais de 8 horas. Desistiram de esperar. Depois da Arrows voltamos pro lodge, mortos. Mas mesmo louco pra dormir, eu tive que fazer uma proeza: buscar Léo, que chegou e foi direto pra piscina. Chapado como só ele fica, não queria sair da água. Segundo disse, estava salvando as borboletas. Pode isso?! E pra ajudar o caso dele ficar ainda mais admirável, eram quase 4 da manhã e o friozinho assoprava sem dó. Só Jesus na vida dele!

No domingo, depois de um banho de piscina (agora pode, Léo!), uma bebida bem gelada e um queijo com recheio doce que nos ofereceram sem cobrar nada, fizemos as malas. Deixamos a cidade, amizades e o Serginho, em particular, deixou alguns álbuns do Bob Marley em mp3 para a dona do Lodge. Puta vontade de ficar mais uns dias... Mas volta foi uma aventura a parte. Decidimos cortar caminho, por dentro do Kruger Park, pra economizar umas 2 horas de viagem. O problema é que o parque fecha as 18h30 e o limite de velocidade é 50Km/h. Resultado: calculamos mal e no meio do caminho percebemos que não dava tempo de chegar na saída que “planejamos”. E olha que mantivemos a média os 70km/h durante todo o percurso. Sim, somos moços feios e desrespeitamos as regras do parque. Mas ok, não faremos mais isso!




A aventura animou o regresso. Vimos girafas, elefantes, zebras, javalis, empalas e um grupo muito, muito, muito grande de babuínos. E para não pagarmos a multa de 1500 Rands, saímos por um portão que fica na extremidade central do parque, que é bem comprido. Daí o motivo de gastarmos o dobro de horas. Acabamos fazendo mais que 70% do percurso que queríamos evitar e que, acumulados com o passeio no Kruger, custou-nos nada menos que 10 horas dentro de um Kia Picanto apertado pra caralho!




Bom, é isso aí. Vejam este vídeo pra terem uma ideia melhor da aventura! Não tá com muita qualidade, mas se o deixarem carregar completamente fica melhor. As músicas que vão ouvir são Arms of Steel e Doo Be Doo, ambas do Freshlyground. Bjos.

segunda-feira, março 8

De mala e cuia pra Moçambique – Parte II

Já eram meados de dezembro e lá estava eu na secretaria da Miami Ad School. Na Vila Mariana, onde fica a escola, tem uns bares do grande caramba. Minhas noites sempre se estendiam numa conversa bacana com o pessoal da minha antiga turma. Uma vez até tomamos uma cerveja com o Carlos Manga Junior. E pra quem não sabe quem é o cara, dá uma procurada no Google.

Passei bons momentos ali na Miami. E aprendi muito também. Mas então, voltando à secretaria, eu estava lá pra trancar minha matrícula. Deu um aperto terrível. Eu tenho uma relação muito especial com essa escola. Qualquer hora farei questão de contar como foi que eu entrei lá e vocês entenderão.


Uma antiga foto que tirei dos corredores da Miami Ad School São Paulo. Enfim ela serviu pra alguma coisa!


Além do coração, outra coisa começava a ficar apertada: o tempo. Corri pra resolver o que faltava e, aos poucos, minha lista de 359 coisas ia ficando menor. Tirei meu Certificado Internacional de Vacinação – aliás, fica a dica: sem este documento você não sai do Brasil. E tem que tomar a vacina de Febre Amarela no mínimo 10 dias antes de viajar. Também comprei roupas novas, malas e um monte de coisas que eu achava que ia precisar. Lia constantemente sobre os focos de Malária em Moçambique. Fiz questão de incluir na bagagem uma latinha de repelente. Pra te falar a verdade, ela está aqui até hoje. Usei só a metade e nunca peguei malária. Conheço gente que já pegou 12 vezes. Aqui em Moçambique o sistema de saúde não é dos melhores. Diria até – e com muita pena – que é dos piores. Mas se tem uma coisa que eles sabem tratar muito bem é malária!

Alguém me disse que um conhecido foi se tratar de malária no Brasil porque não confiava no sistema médico daqui. Infelizmente a pessoa não sobreviveu. O Brasil não entende tanto de Malária. Aqui em Moçambique você pega malária num dia e em uma semana está completamente curado. Raramente um tratamento não funciona, quando é feito logo que se sente os primeiros sintomas da doença.


Esse é o China, depois da primeira noite em Maputo. Não apanhou malária de ruim!


Tarefas cumpridas, malas feitas, repelente garantido. No dia 4 de janeiro, o China chega de Pernambuco para passar a noite em minha humilde casa, na Zona Leste Paulistana. Voaríamos no dia seguinte, depois do almoço. Não fazíamos ideia do que nos esperava. Conversamos bastante naquela noite. Expectativas.

Por falar em voar, o China tá acostumado com isso. Ele sempre ia visitar a família e os amigos em Recife, enquanto esteve em Sampa. Deve ter aí uns 30 vôos ou mais no portfolio. Mas ao contrário do meu amigo, eu nunca havia viajado de avião. E como eu disse no post anterior, seriam 10 horas sobrevoando o Oceano Atlântico. Tensão total.


5 de Janeiro de 2009, Aeroporto Internacional de Guarulhos. Prontos pra aventura.


Quem nos levou ao aeroporto foi minha mãe e o meu irmão mais novo, o Samuca. Confesso a vocês que foi um dos momentos mais complicados da minha vida inteira. Não pude controlar o choro. Eram os últimos minutos com eles. Minha vida tomava uma direção completamente diferente da que eu havia imaginado durante os últimos anos.


Sorrisos fingidos... Doidos pra abrir o berreiro!


Continua... Mas juro que em mais um post terminarei!

sábado, março 6

De mala e cuia pra Moçambique – Parte I

Começa assim:

É 2008. Meu celular toca, numa tarde qualquer de outubro. Naquela época eu morava no velho condomínio Central Parque, centro da Lapa paulistana. Eu dividia, havia poucos meses, um pequeno apê com três amigas. E essa foi, até então, minha única experiência longe da minha mãe e meus irmãos. Olhei pro celular. Era a ligação de um grande brother. Atendi:

- Faaala, Chinoca!

Conheci o Victor – vulgo China – na Miami Ad School. Um pernambucano que inventou de ser Diretor de Arte e foi pra Sampa se aventurar. O cara não é chinês, mas também não tem esse apelido por ter. É filho legítimo do Jackie Chan. E quem não acreditar, fala comigo que eu mando uma foto dos dois juntos. Continua a nossa conversa no celular:

- Zeca, quer ir pra DDB de Moçambique, meu fih?

Perguntou o malandro do China, com aquele tom de piadista. O cara era aparentemente tímido, mas verdadeiramente descarado. Continua sendo descarado, aliás. Mas agora perdeu a aparente timidez.

- Como assim, Moçambique, porra? Ta doido, China?

- Mai homi! Diga se quer ir ou não!

Meu coração acelerou por alguns instantes. Será que o cara ta tirando onda? Foda-se, pensei. Vou ver qual é a dele. Se for brincadeira vai ser só mais uma.

- Vamo embora!

- Ok. Então faz as malas. O CEO da DDB Moçambique nos convidou!

- Peraí, peraí, cara. Isso é brincadeira né?

- Veja aí o seu e-mail, pô. Já encaminhei o convite.

- Caralho, mermão. Caralho, mermão. É sério?

- Veja o e-mail, porra.

Parei por alguns segundos. Pensei em um monte de coisas. Não era tiração de onda, do nordestino, safado, piadista. Eu senti que a gente ia mesmo embora para as terras africanas.

Na altura, boa parte da nossa turma da Miami Ad School estava indo pra um programa chamado Quarter Away. É um intercâmbio que pode ser pra estudar numa outra unidade da escola ou estagiar em uma puta agência de publicidade no exterior. Tinha gente indo pra Londres, Miami, NY, Madrid, Hamburgo e os carambas.

Mas acredite: é foda ir. Custa um dinheiro que o China não queria pedir para os pais e que nem que eu pedisse para os meus, conseguiria. Porém, tinhamos que sair do Brasil de uma forma ou de outra. A gente queria bastante isso.

- China, mermão, vamo simbora! Este vai ser o nosso Quarter Away!

- Pode crê, Zeca. Foda-se Europa e America do Norte e país de primeiro mundo, vamo simbora pra África!

O primeiro e-mail que a DDB enviou dizia: “Quais são as vossas condições para deixarem a terra dos bumbuns e virem para a terra do sol e dos camarões?”. E dizia também: “Estamos a precisar de vocês já neste mês”.

Fodeu tudo, pensei. Eu tinha 359 coisas pra resolver. Algumas eram: pedir demissão, tomar vacinas, cancelar meus cartões de crédito, ver pessoas, vender minha moto, comprar roupas, malas e repelentes e convencer minha mãe de que isso não era uma loucura, o que era mais difícil.

Mas sobre o tal convite que o CEO da DDB nos fez, por intermédio do meu amigo “Chan Filho”, existe uma explicação. Afinal, o cara não ia mandar um convite assim, do nada. O China mandou um e-mail pra DDB Moçambique, sem me dizer nada, pedindo uma avaliação do nosso portfolio. Duas horas depois, o cara responde convidando-nos.

Aguém me pergunta: “MAS PORQUE O CHINA MANDOU E-MAIL PRA MOÇAMBIQUE, PELAMOR DE DEUS?”

Pois bem... Um dos motivos é que não falávamos bem o inglês (não falamos ainda!). Outro motivo é que o China fez uma pesquisa sobre países de língua portuguesa e decidiu – não me perguntem o porquê – mandar o primeiro e-mail para este país pouco conhecido. Ou seja, culpa dele!

Em outra época eu reclamei: “Esse fih de rapariga devia ter mandado o primeiro e-mail pra Portugal!”. Já hoje, eu o agradeço, embora ele ainda não saiba de quê! Hehe.

Mas esse agradecimento tem a ver com outro motivo que ajuda a responder à pergunta em caixa alta aí em cima. Eu simplesmente saquei que o destino apontou pra Moçambique. E não adianta insistir, não vou conseguir explicar!

Mas continuando. No e-mail do tal CEO da DDB, ele dizia que queria a gente na agência dele em outubro mesmo. E eu, uma semana depois, mesmo com as 359 coisas pra fazer – incluindo a mais difícil, que era convencer minha mãe – não tinha feito nem o pedido de demissão.

Voltei a falar com o China, que nessa altura já tinha largado a Miami Ad School e ido para Recife organizar a vida dele. Por skype:

- Zeca, o cara quer que a gente vá já esse mês, mas eu vou mandar e-mail dizendo que só vamos no ano que vem.

- Ta doido China? Daqui pra 2009 são 3 longos meses. O cara vai pegar outra dupla e a gente vai chupar dedo.

- Cara, to dizendo... relaxe! Se eu vou embora pra África, tenho que passar o final de ano com a família. Eles vão ter que entender.

- Mas cara...

- Zeca, não vou agora! Vou passar o final de ano aqui.

- Porra, China! Ok. Vamos em janeiro pra esse caralho. Manda aí o e-mail pro magnata e reza pra ele não desistir da gente!

E assim, vivi meus últimos 3 meses no Brasil. Com uma expectativa do caramba, 359 coisas que eu só consegui resolver faltando um mês para a viagem e uma tensão que aumentava a cada dia: seria o meu primeiro vôo de avião. E de brinde, 10 horas sobre o oceano atlântico.


Anne, Aline, Sâ e eu no apartamento da Lapa.

Parte da turma da Miami - China de verde

Tá bom, tá bom. Vou escrever.


Já faz um tempo que eu to planejando escrever neste blog. E já faz o dobro de tempo que as pessoas estão pedindo pra eu escrever.

Quando a preguiça deixa, o tempo impede! Mas hoje tomei coragem e resolvi contar para vocês as minhas aventuras na África e no mundo.

Quem fez a capa foi o meu amigo Zé Maia, um puta designer que já rodou pela Europa, viveu em Angola e agora mora aqui na terra dos Camarões. Mas o Zé é um capítulo à parte. Ou melhor, eu diria até que o Zé são muitos capítulos à parte. Então depois eu falo dele.

Voltando. Eu não tenho muito saco pra escrever pra blog, apesar de gostar muito de ler o dos outros! Inclusive, aqui estou eu já enchendo lingüiça. Ainda tenho que me acostumar com a ideia.

Mas pronto. Comecei. Agora provavelmente vou me empolgar.

Só não reclamem se eu disser muitos palavrões! Aliás, me segurei pra não dizer nenhum neste post porque não queria causar uma primeira impressão ruim!

Bem-vindos ao mundo de Zeca e vamos que vamos falando de borla.